Todos os anos, mais ou menos nos meses de Verão, sacerdotes, religiosas/os, e muitas outras pessoas leigas param uns dias, para fazerem o chamado retiro anual ou os Exercícios Espirituais de S. Inácio de Loyola. É para estes últimos que me desloco todos os anos, no mês de agosto, até à Casa de Espiritualidade e Cultura, em Soutelo-Vila Verde, a fim de que, afastada durante 8 dias do ritmo habitual da vida, fazer uma experiência de oração mais profunda e, através dela, escutar a Palavra de Deus, deixar-me tocar por ela, discernir a voz do Espírito e projetar a vida com novo fôlego, novo entusiasmo e renovada Missão Apostólica.
O que significam para mim os Exervícios Espirituais?
- Deixar-me habitar pelo silêncio
Não é, simplesmente, um tempo para “ir descansar”. É um tempo para deixar que o silêncio me habite, escutar a Voz de Deus e descobrir a sua vontade. Dada a minha missão apostólica atual, chego sempre, como costumo dizer, “cheia de mundo” e necessito calar “esses barulhos” para me deixar envolver pelo silêncio interior, escutar-me, escutá-l’O e ouvir de novo os “gritos” do mundo, mas desde os ouvidos de Deus. Não é fácil, nos primeiros dias, deixar-me silenciar e serenar por dentro. Mas, o silêncio exterior que me envolve, a música suave às horas das refeições, o ambiente acolhedor dos espaços, as frases escritas nos quadros pendurados nas paredes, as muitas capelas existentes, o claustro, o bosque, o rio, ali bem perto, o ver outros irmãos e irmãs caminhando e rezando em silêncio, tudo isto contribui para ir entrando “cá dentro” de mim, e criar as condições para que o Silêncio me habite, como linguagem que me leva até Ele e me fala, pois como diz S. João da Cruz, “ a voz que Ele ouve é só a do Amor silencioso”
2-Ordenar a vida para melhor servir e amar a Deus presente no mundo
Jesus disse: “Estarei sempre convosco”. (MT28,20) E assim, nos E.E. eu posso, através do silêncio, do tema dos E.E, e do orientador do retiro, o grande facilitador do Espírito, conhecer, amar e seguir mais a Cristo para que, seja também, sinal da sua Presença no meu meio ambiente. E tudo isto faz renascer em mim o desejo de uma oração profunda, (não importa se com muitas consolações ou envolvida em aridez), para olhar a própria vida à Luz de Deus, reconhecer, em mim o que precisa de conversão e partilhá-lo na confissão e direção espiritual, perceber melhor o que Deus me está a pedir, aprofundar a relação pessoal com Cristo, agradecer os dons recebidos, e entregar a Jesus as minhas preocupações, feridas, limites, vulnerabilidades e projeto e pedindo Luz para viver com maior liberdade interior e disponibilidade para fazer sua Vontade.
- Os E.E são como umas “termas espirituais”
S. Inácio comparava a vida espiritual ao exercício físico. Tal como o corpo precisa de exercício físico para se fortalecer, também o nosso espírito precisa de treino espiritual. Mas, no meio do treino, também é preciso parar, rever e avaliar. Assim, dadas as minhas circunstâncias atuais de vida os E.E. funcionam como umas termas onde exponho as minhas fragilidades interiores, me avalio por dentro, peço ajuda e conselho e me deixo curar e avaliar. E isto acontece na oração pessoal, na escuta da Palavra, nas reflexões e pistas que nos são dadas, na Eucaristia e nas moções interiores que, pela graça, se fazem sentir em nós. Sob o olhar contemplativo de Deus, escuto-O, deixo-me amar por Ele, examino-me, escutando os movimentos interiores da alma deixando que Deus me fale e ordene a vida segundo a Sua Vontade.
Assim os E.E. são como umas Termas ou Oásis no deserto da vida onde me sacio, curo e fortaleço para ser mais LUZ na Missão Apostólica que Deus me confiou.
- O grande Centro- Jesus
O tema dos E.E. ou de qualquer retiro espiritual é sempre a Vida de JESUS. É sempre uma oportunidade para percorrermos os passos de Jesus e deixarmo-nos questionar pela sua Mensagem:
Senhor como queres que eu viva a minha vida? Que faço por TI? Que devo mudar para melhor, Te seguir? Que devo fazer para que quantos se aproximarem de mim sintam a tua presença?
- Exercícios Espirituais centrados em Cristo Eucarístico
Este ano o tema dos E.E. que fiz, tinham como pano de fundo a EUCARISTIA, ou melhor, CRISTO EUCARÍSTICO. Este tema ajudou-me a reestruturar a vida pela Eucaristia. Todas as reflexões que fazíamos e as pistas que nos eram oferecidas, para a oração, ajudavam-nos a entender que o Cristo da Eucaristia é plenamente o mesmo que o Cristo da Encarnação, que o Cristo que pregava e fazia milagres na Palestina, que o Cristo que morreu e ressuscitou em Jerusalém Só o modo de presença é que é diferente. “A Eucaristia é o coração e o ponto mais alto da vida da Igreja, porque nela Cristo associa a mesma igreja com todos os seus membros, ao seu sacrifício de louvor e ação de graças, oferecido ao Pai uma vez por todas na Cruz; por este sacrifício, Ele derrama as graças de salvação sobre o seu Corpo que é a Igreja.” (Catecismo da Igreja Católica, 1407)
Ao longo do retiro fomos percorrendo o caminho de Jesus desde a sua Encarnação até à Morte e Ressurreição, como quem percorre o caminho da Eucaristia que é o próprio Cristo Salvador que salva a partir da integridade do seu mistério da sua vida e da sua missão. A Eucaristia, ou seja, Cristo Eucarístico, celebra-se, comunga-se, adora-se e pratica-se. Esta certeza, na Fé, leva-nos a um profundo exame sobre o modo como a Eucaristia nos leva ao Centro da Vida: “Se a Eucaristia é Cristo”. Como celebrarmos cada Eucaristia em que participamos? Como adoramos? Como comungamos? Como a pomos em prática ao longo do dia?
Mesmo biologicamente Cristo Eucarístico desfaz-se em nós em cada Comunhão que fazemos. E mais perguntas vão surgindo: Como são as minhas comunhões? As minhas adorações ao Santíssimo? Humildemente O adoro e me esqueço de mim para me “desfazer” do meu orgulho, dos meus preconceitos da minha autossuficiência e me derramar totalmente em Deus pela confiança e abandono à sua vontade?
- A Eucaristia pratica-se. Cristo Eucarístico reclama missão
Cristo Eucarístico não se resume a uns momentos de celebração, mas implica nutrir e alimentar a vida por Ele. Temos que viver em “estado Eucarístico”; “Para mim viver é Cristo” (FL 1,21) Temos que levar Cristo para a vida, pôr em prática a última ceia atualizando no mundo de hoje o serviço do lava pés. Celebrar e comungar Cristo realmente presente, para assumirmos o seu estilo de vida. Ser cristão é ser Eucarístico, é amar até dar a vida toda, até doer, “até ao extremo”. Praticar a Eucaristia, é viver o Amor Maior, o Amor de Jesus. É “adorar o Santíssimo” em cada irmão. Viver a missão, que a Eucaristia reclama, é chegar à liberdade total, a liberdade do Amor. Também profanamos o Santíssimo quando profanamos Jesus presente no sacrário do nosso próximo, ou violamos a dignidade da pessoa humana. Em cada Eucaristia renova-se o mandamento do Amor e Cristo diz-nos: “O amor com que vos deveis amar é o mesmo com que Eu vos amo”.
Diz o papa Leão XIV na encíclica “Magnifica Humanidade (nº 235):
A Eucaristia abre-nos à justiça e à partilha, com uma atenção especial para com quem carrega o fardo da pobreza e da marginalização. E enquanto as novas redes económicas e tecnológicas podem gerar exclusão, isolamento e dependências, a Igreja alimentada pela Eucaristia é chamada a mostrar outro critério, preservando os vínculos, devolvendo a voz aos que não se veem e orientando os processos para a dignidade das pessoas”
Saí destes E.E. centrados em Cristo Eucarístico, com o desejo e compromisso de pôr a Eucaristia no Centro da vida. A ela chegar cada dia como quem chega a uma Fonte. Nela beber, nela me saciar, nela me hidratar e nela me refrescar. Dela partir em missão apostólica para mostrar essa Fonte a outros irmãos e irmãs e, sobretudo, ser sinal da dua Presença Eucarística junto de todos.
Segundo S. Inácio os E.E. fazem-se para “alcançar Amor”. A Eucaristia é Cristo e Cristo é Amor.
Maria de Fátima Magalhães, stj


